Na obra de Nuno Antunes - Recycling Sea Art, o mar não é apenas horizonte: é matéria, memória e território. As peças aqui apresentadas resultam de um processo quase arqueológico, onde o artista recolhe aquilo que o oceano devolve - restos de embarcações, redes abandonadas, plásticos moldados pelo tempo, metais corroídos e objectos naufragados da vida humana - e transforma-os em esculturas que interpelam o olhar e a consciência.
Ao incorporar resíduos marinhos na prática artística, Nuno Antunes convoca uma dupla narrativa. A primeira, estética: formas que remetem símbolos costeiros que tomam corpo através de texturas irregulares, cores desbotadas pelo sol e volumes que preservam a força das marés. A segunda, ecológica e social: cada fragmento testemunha o impacto do consumo e da desatenção humana sobre o oceano, convocando-nos a refletir sobre responsabilidade, cuidado e regeneração.
As obras expostas são mais do que objetos; são organismos híbridos. Carregam a rugosidade do mar e a delicadeza do gesto artístico. Através da recomposição de materiais outrora descartados, Nuno devolve-lhes sentido e presença, resgatando histórias que permaneceriam invisíveis. No encontro entre o bruto e o poético, o artista revela que a arte pode ser um instrumento de transformação - estética, ambiental e cultural.
Recycling Sea Art afirma-se, assim, como uma prática de resistência e beleza: uma forma de honrar o território costeiro, de alertar para a urgência da preservação dos ecossistemas e de celebrar a capacidade humana de criar a partir daquilo que parecia perdido. Nesta exposição, o mar fala - e Nuno Antunes é o seu tradutor sensível, atento e indispensável.